Os dias festivos e a verdade
O último mês do ano inicia-se e brevemente abre a época "oficial" dos jantares e das festas. E a propósito de datas festivas, dei comigo a pensar sobre o sentido desses dias...
Para mim os dias festivos não são os mais relevantes, mas sim os anónimos dias da semana. São os mais importantes, porque são eles que criam o resultado contínuo. As festas e encontros têm o seu lado, indiscutivelmente, importante, mas esgotam-se aí.
Há inúmeros eventos sociais, festas e encontros onde predominam sorrisos forçados, posturas fingidas e o politicamente correto a camuflar a verdade. A cumplicidade torna-se teatro, disfarçada de amabilidade social, enquanto se trocam favores e aparências em vez de autenticidade. Cultiva-se a imagem em detrimento da essência, e reverencia-se quem já foi elevado ao pedestal, não por mérito recente, mas por conveniência.
A dissimulação constrói a ilusão de um ser perfeito, confiante e cheio de energia. Mas a realidade está sempre povoada de “apanhados” — momentos de verdade crua que escapam à encenação. É nesse lado espontâneo e natural, que não precisa de roupa impecável nem de imagem fabricada, que se revela o que é autêntico. Longe da tecnologia de ponta e da intelectualidade em voga, surgem sorrisos que, no fundo, refletem o que secretamente se rejeita.
O que vem do coração sente-se — assim como se sente, com a mesma nitidez, a simpatia dissimulada e a amizade forçada. Por isso, prefiro os simples, os despojados, os que riem não porque não têm problemas, mas porque aprenderam a exorcizá-los com leveza.
Dispenso o politicamente correto e a artificialidade que só existem para não ficar mal na fotografia. Num mundo cada vez mais frio, a humanidade aquece-se na lareira da autenticidade — não na hipocrisia mascarada de simpatia.
É nos dias comuns, nos momentos silenciosos e sem público, que mais precisamos da presença genuína, dos gestos reais de amizade. Não nas festas, onde todos sorriem e estão “disponíveis”. A verdadeira ajuda e conexão não se mostra em aplausos, mas em ações silenciosas. Caso contrário, seremos apenas figurantes em eventos e acenos sociais. A noite prepara o dia, mas não recebe os agradecimentos!
É por tudo isso que amo os simples, os verdadeiros, os despidos de convenções — e até as ovelhas negras, que na verdade não o são. São apenas as que ousam questionar gerações de erros bem vestidos de etiqueta. Mesmo em família, mesmo entre amigos.
São essas almas corajosas que iluminam o caminho da mudança, reajustando, sem medo, o GPS da humanidade.










