As datas festivas trazem consigo emoções intensas. Misturam alegrias e tristezas, encontros e ausências. São dias que nos confrontam com o que vivemos: as conquistas alcançadas, as perdas que enfrentámos, os desafios que nos transformaram e as lições que ainda estamos a integrar.
Neste momento de transição, reflito sobre o processo de encerrar o ano. Procuro fazê-lo de forma mais consciente, com intenção e aceitação, para receber o que aí vem com um coração mais leve e aberto.
Todos nós, em algum momento, enfrentamos perdas — de trabalho, de etapas da vida, de pessoas que amamos. A nossa mente, porém, tende a rejeitar o que dói, a lutar contra o que não quer sentir. Passamos a vida à procura de soluções rápidas para apagar a dor, tentando voltar atrás ou avançar o mais depressa possível.
Como nos recorda Thich Nhat Hanh: “Não é a impermanência que nos faz sofrer. O que nos faz sofrer é querer que as coisas sejam permanentes quando não o são.”
A vida é um fluir contínuo, uma mudança constante, e o que mais magoa é não podermos controlá-la. A perda é a manifestação mais clara disso. Mas a verdadeira paz chega quando aprendemos a aceitar; quando finalmente compreendemos que aquilo que acontece não está sob o nosso controlo e percebemos que apenas podemos controlar a forma como vivemos esses acontecimentos.
Mas qual é o significado de “aceitar”?
Dizer “aceito” é fácil quando tudo corre bem. A verdadeira aceitação revela-se nos momentos difíceis. Perante a dor, o impulso mais comum é evitá-la: tentar mudar a situação, sair dela rapidamente, fazer tudo para não sentir o desconforto.
Raramente paramos para nos “sentar com aquilo que nos acontece”. Em silêncio, respiramos pouco e fugimos do que dói. No entanto, há momentos em que tudo o que é pedido é presença: ficar, sentir, abraçar o que está a acontecer. Aceitar não é concordar nem ficar feliz com a dor; é permitir que o coração abrande e encontre alguma tranquilidade, mesmo no meio dela.
Quando deixei de lutar contra o que sentia, algo em mim suavizou. A tristeza não desapareceu de imediato, mas deixou de ser uma ameaça. Tornou-se apenas uma presença — pesada, sim, mas honesta. Ao dar-lhe espaço, percebi que não precisava de ser combatida, apenas reconhecida.
Ficar com o que sentia ensinou-me que a dor perde força quando é acolhida. Não porque se resolva, mas porque deixa de estar sozinha. Há um descanso silencioso que nasce quando paramos de exigir de nós mesmos uma versão mais forte, mais positiva, mais “capaz”. Esse é o ponto-chave da aceitação: quando deixamos de querer que as coisas sejam diferentes do que são e nos permitimos viver o que está a acontecer, sem resistência, encontramos a paz.
Soltar é um ato silencioso de coragem. Não acontece de forma imediata nem linear. Às vezes, solta-se aos poucos — com recaídas, com saudade, com dúvidas. E, ainda assim, cada pequeno gesto de desapego é um passo em direção à leveza.
Neste fim de ciclo, talvez o mais importante não seja fazer grandes resoluções, mas escutar com honestidade: o que pesa em mim? o que continuo a carregar por hábito, medo ou culpa? Criar espaço dentro de nós é permitir que o novo chegue sem ter de lutar por lugar.
Há vínculos que custam soltar porque foram verdadeiros. E é precisamente por isso que merecem gratidão. Nada do que nos tocou profundamente foi em vão. Cada encontro, cada escolha ensinou-nos algo sobre quem somos e sobre o que já não faz sentido manter.
Encerrar um ciclo é um gesto de maturidade emocional. É reconhecer o valor do que foi, sem ficar preso a ele. É confiar que honrar o passado não nos impede de caminhar em frente — pelo contrário, dá-nos raízes mais firmes para avançar.
Hoje percebo que posso entrar no novo ano com o coração mais leve e em paz, sabendo que soltar não é desistir — é escolher-me.
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