Há quem diga que o tempo cura tudo. Mas não — o tempo não cura nada, pois não tem poder de cura. Ele apenas coloca distância entre os acontecimentos e o momento presente, mas não apaga as cicatrizes que eles deixaram. A dor transforma-se em aprendizagem e a ferida em cicatriz apenas através do perdão. E o perdão acontece quando escolhemos deixar de estar encarcerados num passado que já não é possível mudar.
O perdão não é uma oferenda para quem nos feriu, mas sim um ato de libertação para nós mesmos. Enquanto carregamos a mágoa, o rancor mantém-nos presos à situação, à pessoa, à dor. Sempre que alimentamos o ressentimento, revivemos a afronta — e isso volta a magoar-nos. O perdão acontece quando assumimos que a dor, a raiva e o rancor já não nos definem.
Perdoar não é esquecer o que aconteceu; é olhar para o passado de outra forma, compreendendo que seguir em frente é mais importante do que ter razão. É perceber que a nossa cura é mais valiosa do que cobrar arrependimento de quem, talvez, nunca o venha a oferecer.
O perdão é escolher não permitir que o outro continue a atingir-nos através da lembrança. É um processo de reconstrução interior. Perdoar é deixar-nos moldar pelo que nos magoou, mas sem permitir que isso nos fira outra vez.
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Ilustração de Flávio Wetten@Lifeonadraw